sobralO Sobral voltou ao Colégio

Era uma figura muito esperada, dado o brutal acidente de que foi vítima, a 8 de abril de 1979, quando no fim dum jogo de Voleibol com o Castelo da Maia, regressava a Freixo de Numão – Foz Côa, sua terra Natal, já ocupando o carro de sua família, conduzido pelo pai, com o avô e os dois irmãos mais novos. Uma camionete descomandada, que regressava, ao fim da tarde, de um jogo de futebol, já perto de Freixo, embateu, violenta­mente, neste carro ligeiro, com consequências muito funestas: morreu o avô, e os irmãos ficaram feridos, um com certa gravi­dade. Levaram-nos para o hospital da Guarda, deixando o avô morto e o Sobral que tinha ficado ao seu lado como se tivesse falecido. Ao raiar do dia, iam remover os dois cadáveres, quando repararam que o Sobral se mexeu, transportaram-no de imediato para o hospital Universitário de Coimbra, onde permaneceu 19 dias em estado de coma profunda. Apesar de tudo isto o Sobral com 15 anos de idade deu um pontapé na morte, muitas orações, muitas lágrimas, muitas velinhas acesas na capela, milagre? talvez!... Eles existem… E dois meses depois, saído do hospital, regressou ao Colégio, rodeado de carinho e amizade, para con­cluir o nono ano de escolaridade.

O seu nome completo é António Manuel Brilhante Sobral. Brilhante foi-o sempre desde os nove anos com que entrou no Colégio, com o brilhantismo dos diamantes, em tudo o que fazia, nas aulas, nas classificações, nas amizades, na camaradagem, etc, era grande em tudo. No Voleibol, capitão das equipas por onde passou, tornou-se mítico, como o melhor jogador iniciado de Portugal, conhecido do Minho ao Algarve com a camisola número 5, por isso mesmo, a 9 de junho do mesmo ano, as equi­pas de Voleibol do Futebol Clube do Porto, que sempre o deseja­ram, vieram-no homenagear a Lamego disputando a taça Sobral. Porque derramou o seu sangue a serviço do Colégio, porque deixou parte da sua massa encefálica no asfalto da estrada, é considerado como a pedra angular de todo este edifício de ouro construído por gerações e gerações do Colégio de Lamego: o VOLEIBOL.

Veio agora ao Colégio a 7 de março na senda das brilhantes pegadas de outros antigos alunos que por aqui têm passado em palestras de orientação aos atuais, “Percursos de Vida”, criadas pela A.A.A.C.L. Com 50 Anos de idade, vestido em traje de passeio, respirando simplicidade e nobreza de carácter, apresen­tou-nos um Curriculum Vitae riquíssimo, ao nível de méritos e reconhecimentos internacionais: Licenciado em Relações Inter­nacionais pelo ISCSP – Lisboa, Pós graduação em International Finance, doutorado em Antropologia Social e Mundo Contem­porâneo na U.N.E.D., Madrid, docente de ensino superior em várias universidades, muitos trabalhos publicados, conferências e colóquios pelos quatro continentes do mundo, etc, e mais não caberia nestas páginas do Arcádia do muito que tem como Cur­riculum Vitae. Atualmente é assessor de imprensa na reitoria da Universidade de Lisboa. E continua a viajar em serviço!

Veio de véspera para dormir no seu Colégio, sentir os aromas desta casa e encontrar os lugares de referência sagrada. O Sobral nunca puxou dos galões do muito que tem feito no mundo do trabalho. Mostrou-se uma pessoa humilde, voltou a ser colegial falando única e exclusivamente do seu tempo de colégio. “O que sou devo-o ao Colégio, alma mater de todo o meu percurso aca­démico. Aqui aprendi a disciplina, a verdade, o rigor, normas e regras, que me comandam a vida.” Recordou um retiro de 3 dias que fez no mosteiro de Singeverga, nossa casa mãe, onde bebeu luz e força que nem sempre encontrou no mundo, por vezes, tão complicado e adverso. Com emoção falou dos seus 9 anos de entrada no internato do Colégio, da complicada despedida de seus pais e irmãos. Agradeceu ao Padre Policarpo o carinho e amizade com que o tratou neste difícil período do seu começo. Mas mais que tudo, da chave que lhe atirava da janela do seu quarto, quando, na irreverência dos seus 17 anos, se atrasava na cidade por qualquer motivo e chegava, alta noite, com as portas já fechadas… E muito mais disse que, certamente, será sement­eira para estes jovens, tão desnorteados pelo rumo que dar a suas vidas num período tão conturbado económica e politicamente, sem futuro risonho para lhes dar um emprego. Rapazes e rapari­gas cheios de valor para servir o nosso Portugal e não precisarem de emigrar! Finalmente respondeu a todas as questões que lhe foram postas.

À refeição do almoço sentou-se à mesa, ele, seus pais e irmãos, com os beneditinos da comunidade educativa do Colégio. Recor­dou tempos felizes neste rincão sagrado. António Manuel Bril­hante Sobral como amante do Princepezinho de Saint-Exupéry “foi-se embora sempre a pensar na sua flor… simplesmente uma florzita”.

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